Atualmente diversas são as reportagens veiculadas pela imprensa criticando os modelos e resultados da educação fundamental no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro. O alvo das críticas é o sistema de ciclos e a aprovação automática e, em quase em sua totalidade, citam a responsabilidade dos professores no processo. Faremos uma análise das responsabilidades em cada nível tentando construir uma imagem mais real do estado da arte da educação fundamental no Rio de Janeiro.
O sistema de ciclos, originalmente utilizado na Europa, defende a continuidade do ensino e o acompanhamento do aluno na mesma turma por três anos, quando seria feita uma avaliação e, aí sim, a retenção ou não dele para o próximo ciclo.
No Brasil este sistema foi implementado sem a infra-estrutura necessária já que não temos professores nem em número e nem com treinamento suficiente para tal e as condições estruturais e logísticas são precárias além das turmas superlotadas com
Venho aqui propor então uma discussão acerca desse processo já que em minha prática diária o que percebo é que muitos professores parecem ser os únicos realmente preocupados com a aprendizagem do aluno. O Governo, a Secretaria de Educação, a Direção, os pais e principalmente os alunos não demonstram nenhum comprometimento com o aprendizado, mas sim com o cumprimento das metas estatísticas, com as bolsas de incentivo e com a aprovação, ficando todo o conteúdo a ser fixado pelo aluno em terceiro ou quarto plano.
Temos um Governo Federal preocupado com as estatísticas, concedendo incentivos financeiros aos estados e municípios baseados no número de crianças matriculadas e aprovadas no período. Por sua vez os estados e municípios criam mecanismos que possibilitem o aumento dessa receita, seja cada vez mais facilitando as aprovações, ou mesmo utilizando-se de meios ilícitos como a matrícula dupla criando listas de “alunos fantasmas”. Ou seja vivemos em um grande mundo de faz-de-conta, no qual os grandes prejudicados acabam sendo os alunos que cada dia aprendem menos, ficando fora do mercado de trabalho e sem oportunidades para que a grande farsa da melhoria da educação seja mantida.
As CREs e a Direção das escolas ficam pressionadas pelos governantes a fazerem cumprir tais metas, sendo obrigadas a concordar e fiscalizar essas práticas e empurram a responsabilidade para os professores que são os pontos finais das linhas e que, sem opção, cumprem o determinado pelos patrões.
Os alunos, por sua vez, fazem o que sempre fizeram, em sua ampla maioria rendem o que é necessário para serem aprovados, deixando passar muitas vezes em branco esses preciosos anos destinados à sua educação. Mas se quando havia um mínimo determinado para a aprovação já era difícil para a escola fazer com que eles aprendessem e se interessassem por algo mais, além das notas, hoje em dia com a certeza da aprovação a escola passa a ser um grande clube destinado à vida social e à alimentação.
Aos pais, os quais já são fruto de uma geração que viveu uma escola em decadência e que não a tem como referência, cabe o papel que se repete ano a ano, de omitir-se e negligenciar durante todo o período letivo o acompanhamento dos estudos de seu filho. Quando chega o dia da entrega do boletim final, ainda vem contestar o professor que mesmo sendo obrigado a passar seu filho, deu-lhe uma nota baixa, fruto do seu aproveitamento nas avaliações.
E os professores? Santos ou demônios desse processo? Se por um lado as críticas de descaso e falta de interesse podem ter algum fundamento em casos isolados, o que percebo durante o ano é uma classe esgotada, desprestigiada, mas ainda assim única no ambiente escolar preocupada com o aluno e com o seu aproveitamento.
Diariamente participo de discussões, que mesmo não contando com todos, sensibilizam uma boa parte, sobre novas metodologias e estratégias para estimular o interesse dos que nada querem, ou de criar mecanismos de avaliação que entendam a forma de pensar do aluno, e que se pensarmos bem de nada vale pois mesmo que não aprenda nada (e quando digo nada é nada mesmo, pois temos alunos no 6° e 7° ano que não sabem ler nem escrever nada além do nome ou os analfabetos funcionais, estes presentes até o ensino médio) ainda assim vão progredir de série e como não podem ficar retidos no mesmo ciclo mais de uma vez, avançarão até o final dos seus estudos, terminando com um grande vazio intelectual ao final dos 9 anos do ensino fundamental.
Fazemos parte de uma classe que ainda trabalha baseada no pensamento de glamour de décadas passadas onde o professor era tratado com respeito, mas que hoje em dia só existe entre nós pois toda a sociedade nos vê como “babás de luxo” ocupando o tempo livre dos filhos enquanto trabalham ou passeiam pelos shoppings.
Minha preocupação com tudo isso continua sendo com o aluno da escola pública, já que os filhos dos que determinam essas medidas estão recebendo uma educação tradicional e com muita exigência, qualidade e atenção nos colégios particulares da elite carioca ou estudando nos CAPs e Escolas Federais e fazendo cursinhos preparatórios. Qual o sentimento de vocês?
Nenhum comentário:
Postar um comentário