segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Esporte, Saúde e Estética: Em busca do “Belo Corpo”

A seguir um texto que escrevi no por volta de 2004 e que costumava trabalhar com meus alunos e que a partir de uma provocação do meu amigo Jones no Facebook, resolvi postá-lo para continuar o debate, já que parece ainda retratar o momento atual. Segue o texto original:


A saúde e o esporte na nossa sociedade são termos que de certa forma se complementam no imaginário social moderno, mas nem sempre foi assim. Já houve tempo em que as pessoas obesas eram símbolo da saúde, a inatividade das mulheres as preparavam para a procriação, sua única função social. Sabemos hoje em dia que a manutenção de um estilo de vida ativo, proporciona inúmeros benefícios para o ser humano. As atividades físicas realizadas de forma regular e moderada promovem melhorias no aspecto orgânico, mental, afetivo e social, principalmente se associadas à hábitos alimentares equilibrados. Estudos comprovam que o principal fator responsável pela longevidade das pessoas é o estilo de vida, associados a outros fatores como a genética, o ambiente e as possibilidades de acesso à assistência médica.

                Temos atualmente em todo mundo taxas de obesidade infantil preocupantes fazendo com que países como a Inglaterra e os Estados Unidos comecem a reestruturar todo o sistema de programas esportivos infanto-juvenis, e principalmente a educação física escolar, já que sabemos que jovens sedentários produzem adultos doentes, gerando despesas para o Estado.

                Um dos grandes fenômenos na área da atividade física que teve sua grande expansão iniciada na década de oitenta foi o das academias de ginástica, onde são oferecidas uma série de atividades voltadas à manutenção de um corpo saudável e preparado para o dia a dia. Junto a esse fenômeno podemos observar um desenvolvimento dos estudos científicos na área e também o aparecimento de métodos de treinamento, sempre com o propósito de criar condições mais eficazes para os objetivos dos alunos.

                Um outro termo que sempre foi associado tanto à saúde, quanto ao esporte foi o da estética. Mas o que é estética? Podemos defini-la como uma harmonia das formas e/ou das cores. Avaliação que passa pela subjetividade, que mesmo sendo característica do indivíduo ou do grupo, está sujeita a influências do meio externo.

                A visão do belo difere de indivíduo para indivíduo, ou de um grupo social para outro, mas está inerentemente vinculada à pessoa humana. Por mais primitiva que seja a sociedade percebemos a necessidade de tornar-se belo, adornar-se, parecer superior, seduzir baseado na própria imagem. As linhas gerais que definem os padrões estéticos são passadas culturalmente em cada grupo, sofrendo ajustes influenciados na sociedade moderna principalmente por princípios econômicos e/ou políticos, criando um padrão quase que normativos sobre os gostos das pessoas.

                A harmonia das formas do corpo humano é uma condição culturalmente construída, os seios enormes das norte-americanas sempre foram exaltados, porém verificamos que no Brasil temos outros referenciais da anatomia feminina que retratam o gosto popular. Existe um ditado popular que diz assim: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”. E a construção do sentido de beleza passa muito por essa esfera. As relações harmônicas das proporções são criadas a partir das tradições culturais, construídas a partir do hábito. O hábito é a repetição sistemática de um padrão, portanto percebemos que os meios de comunicação possuem um importante papel na construção dos modelos estéticos vigentes.

                Isso ocorre na medida em que a penetração social dos meios de comunicação de massa, principalmente a televisão criam uma estética própria, onde o galã da novela, a modelo que faz o comercial, o apresentador do noticiário, todos eles possuem um tipo físico semelhante, criando uma representação de sucesso, bem estar, sensualidade e poder, naquele padrão em questão.

                Estes modelos são temporários e dependem de várias situações mercadológicas já que atrelado a eles existe uma ampla rede produtos destinados à quem a eles querem se enquadrar. O esporte é um meio ideal para se “vender” produtos estéticos, pois a ele se relacionam os conceitos de estética e de saúde.

                O fenômeno esportivo possui diversas relações com outras áreas, como a mídia, a indústria, a política, entre outras. A partir desta perspectiva podemos entender o grande interesse das empresas na exploração do esporte como uma fonte ampla de recursos. Hoje em dia temos o que podemos chamar de “indústria do fitness” onde são criados diversos recursos, muitas vezes de eficácia duvidosa, para a realização de exercícios físicos ou métodos de perda/ganho de massa corporal.

                A tentativa de construção de um corpo baseados nos modelos difundidos pela mídia nos leva à tentativas variadas e muitas vezes perigosas que vão além das nossas possibilidades genéticas, deixando a saúde em um plano secundário. A utilização de drogas e o overtrainning geram distúrbios internos que afetam nosso desempenho e a nossa saúde. As pessoas movidas pelo desejo de possuírem o “corpo do outro” perdem o limite do sensato tentando acelerar os processos naturais adaptativos do corpo.
                Nosso corpo é o nosso único bem, nossa morada, a nossa dimensão como indivíduo e é a partir, e somente dele que podemos perceber o “outro”. Não devemos tratá-lo como um produto, e sim compreendê-lo e aceitá-lo nas suas possibilidades.

                O reconhecimento do belo não pode significar uma tentativa de viver o corpo do outro, quando nascemos já temos em nosso código genético todas as informações pertinentes às características corporais que teremos. Assim como a cor dos olhos, tonalidade da pele, tipo de cabelo, temos geneticamente determinado os pontos de acúmulo de “gorduras localizadas”, a predisposição para ganho de massa muscular, altura máxima, etc. O possibilidade de manipulação através de métodos naturais dessas variáveis é muito pequena não permitindo modificações significativas.

                A excessiva preocupação com as medidas pode desenvolver diversos distúrbios psicológicos como a anorexia e bulimia, principalmente nas mulheres, que são as mais atingidas nessa guerra pelo corpo perfeito, além de desencadear processos de auto-exclusão social.

                Apesar de não ser um fenômenos exclusivo da juventude, parece ser ela a mais atingida pelas pressões decorrentes da beleza eterna, por isso tenho um especial interesse na divulgação de informações e na geração de debates no sentido de fazer perceber que a vida não acaba aos 30 anos, a expectativa de vida de um jovem de 15 anos hoje é que ele chegue até pelo menos aos 75 anos, por isso destaco a importância dele ir “além da beleza”. Isso quer dizer que ele necessita armazenar conteúdos que garantirão sua sobrevivência quando o cabelo, a pele e os músculos não garantirem mais sua colocação profissional e social.

                É fundamental uma conscientização sobre a importância do estudo, não para a obtenção de um grau, mas sim na assimilação de uma base de conhecimentos que permitam uma argumentação consistente na reivindicação de seus diretos, e na escolha dos seus caminhos. Isso passa pela teia social desenvolvida no meio escolar, na sabedoria de ouvir, na responsabilidade de falar.

                Não basta ser hoje, o mais bonito, o mais viril, a mais graciosa, o mais forte ou a mais malhada, por uma imposição natural e imutável, o envelhecimento é para todos que o conquistam, digo conquistar pois o envelhecimento é um prêmio à uma vida bem sucedida, não é e nem pode ser encarado como um fardo, pois é necessário saber viver e saber envelhecer. E a beleza do envelhecimento não é medida apenas pela aparência, mas por toda uma história que começamos a escrever desde muito cedo, que depende dos nossos hábitos, da forma como construímos nossas relações sociais e da forma de como cuidamos da nossa única morada que é o nosso corpo.

                O imediatismo na construção de um corpo aceitável socialmente pode ter conseqüências desastrosas, indo na direção contrária do pretendido. O limite da estética é a saúde, e essa tênue linha que separa o corpo sarado do corpo saudável deve ser compreendida no sentido da aceitação das capacidades e limitações pessoais.

                A busca de uma sociedade ideal é um sonho inatingível, pois as próprias relações sociais de desenvolvem a partir de desequilíbrios, mas é a partir da construção de uma sociedade mais instruída, mais preocupada com o “ser” do que com o “ter”, é que podemos começar a sonhar com uma sociedade mais justa onde as diferenças individuais sejam reconhecidas e respeitadas e as pessoas não sejam julgadas pela sua aparência, mas sim pela consistência do seu caráter.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Novo Prefeito, nova ameaça...

Com a posse do nosso novo Prefeito iniciamos uma nova fase. Confesso que estou um pouco cauteloso, não acreditando em melhorias, principalmente em uma era de crise mundial que se inicia. Como primeira medida nosso prefeito confirmou a promessa de campanha e terminou com o sistema de ciclos a partir do 4º ano, acatando o desejo de quase a totalidade dos professores e de boa parte da sociedade. Ficou prometido para o início do ano o pacote de normas educacionais que regulamentarão o ensino.

Ouvi uma especulação que a Secretária de Educação pretende "gratificar" os professores da rede cujas escolas tiverem uma aprovação significativa. Lembrando imediatamente do texto anterior, imaginei que esta é uma manobra para tentar manter as verbas e benefícios federais, já que a aprovação não será "automática". Ao pagar um prêmio pelo número de alunos aprovados, meu medo é que os professores acabem por ceder ao chamado da realidade e façam o que os governantes querem, ou seja, aprovação em massa e dinheiro no bolso...

E os nossos alunos? Pergunto novamente. Vão continuar sendo enganados e "roubados" descaradamente por um sistema que mascara e impede que tenham acesso a uma verdadeira e digna educação? Vamos esperar as novas medidas e analisá-las com muito cuidado.

O fim do sistema de ciclos tão rapidamente, em um ano de crise, com a prefeitura anunciando corte de 30% em todas as secretarias não são medidas coerentes com uma que refletirá na diminuição das verbas do governo federal. Um prefeito que só fala em cortes e aumento da arrecadação não vai deixar isso tão barato. Acho que alguma manobra vai aparecer por aí... afinal na política ninguém é santo e muito menos bobo e essa "conta" pode acabar na mesa dos professores e dos alunos mais uma vez.

Abram os olhos!!!

Abraços a todos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A Educação no Rio de Janeiro – Ponto de partida para nossas discussões

Atualmente diversas são as reportagens veiculadas pela imprensa criticando os modelos e resultados da educação fundamental no Brasil e especialmente no Rio de Janeiro. O alvo das críticas é o sistema de ciclos e a aprovação automática e, em quase em sua totalidade, citam a responsabilidade dos professores no processo. Faremos uma análise das responsabilidades em cada nível tentando construir uma imagem mais real do estado da arte da educação fundamental no Rio de Janeiro.

O sistema de ciclos, originalmente utilizado na Europa, defende a continuidade do ensino e o acompanhamento do aluno na mesma turma por três anos, quando seria feita uma avaliação e, aí sim, a retenção ou não dele para o próximo ciclo.

No Brasil este sistema foi implementado sem a infra-estrutura necessária já que não temos professores nem em número e nem com treinamento suficiente para tal e as condições estruturais e logísticas são precárias além das turmas superlotadas com 40 a 45 alunos por sala. E a retenção do aluno só pode acontecer uma vez em cada ciclo. Se ao final do último ano ele ficar retido pela segunda vez, aí sim ele é aprovado automaticamente não importando se ele aprendeu ou não alguma coisa.

Venho aqui propor então uma discussão acerca desse processo já que em minha prática diária o que percebo é que muitos professores parecem ser os únicos realmente preocupados com a aprendizagem do aluno. O Governo, a Secretaria de Educação, a Direção, os pais e principalmente os alunos não demonstram nenhum comprometimento com o aprendizado, mas sim com o cumprimento das metas estatísticas, com as bolsas de incentivo e com a aprovação, ficando todo o conteúdo a ser fixado pelo aluno em terceiro ou quarto plano.

Temos um Governo Federal preocupado com as estatísticas, concedendo incentivos financeiros aos estados e municípios baseados no número de crianças matriculadas e aprovadas no período. Por sua vez os estados e municípios criam mecanismos que possibilitem o aumento dessa receita, seja cada vez mais facilitando as aprovações, ou mesmo utilizando-se de meios ilícitos como a matrícula dupla criando listas de “alunos fantasmas”. Ou seja vivemos em um grande mundo de faz-de-conta, no qual os grandes prejudicados acabam sendo os alunos que cada dia aprendem menos, ficando fora do mercado de trabalho e sem oportunidades para que a grande farsa da melhoria da educação seja mantida.

As CREs e a Direção das escolas ficam pressionadas pelos governantes a fazerem cumprir tais metas, sendo obrigadas a concordar e fiscalizar essas práticas e empurram a responsabilidade para os professores que são os pontos finais das linhas e que, sem opção, cumprem o determinado pelos patrões.

Os alunos, por sua vez, fazem o que sempre fizeram, em sua ampla maioria rendem o que é necessário para serem aprovados, deixando passar muitas vezes em branco esses preciosos anos destinados à sua educação. Mas se quando havia um mínimo determinado para a aprovação já era difícil para a escola fazer com que eles aprendessem e se interessassem por algo mais, além das notas, hoje em dia com a certeza da aprovação a escola passa a ser um grande clube destinado à vida social e à alimentação.

Aos pais, os quais já são fruto de uma geração que viveu uma escola em decadência e que não a tem como referência, cabe o papel que se repete ano a ano, de omitir-se e negligenciar durante todo o período letivo o acompanhamento dos estudos de seu filho. Quando chega o dia da entrega do boletim final, ainda vem contestar o professor que mesmo sendo obrigado a passar seu filho, deu-lhe uma nota baixa, fruto do seu aproveitamento nas avaliações.

E os professores? Santos ou demônios desse processo? Se por um lado as críticas de descaso e falta de interesse podem ter algum fundamento em casos isolados, o que percebo durante o ano é uma classe esgotada, desprestigiada, mas ainda assim única no ambiente escolar preocupada com o aluno e com o seu aproveitamento.

Diariamente participo de discussões, que mesmo não contando com todos, sensibilizam uma boa parte, sobre novas metodologias e estratégias para estimular o interesse dos que nada querem, ou de criar mecanismos de avaliação que entendam a forma de pensar do aluno, e que se pensarmos bem de nada vale pois mesmo que não aprenda nada (e quando digo nada é nada mesmo, pois temos alunos no 6° e 7° ano que não sabem ler nem escrever nada além do nome ou os analfabetos funcionais, estes presentes até o ensino médio) ainda assim vão progredir de série e como não podem ficar retidos no mesmo ciclo mais de uma vez, avançarão até o final dos seus estudos, terminando com um grande vazio intelectual ao final dos 9 anos do ensino fundamental.

Fazemos parte de uma classe que ainda trabalha baseada no pensamento de glamour de décadas passadas onde o professor era tratado com respeito, mas que hoje em dia só existe entre nós pois toda a sociedade nos vê como “babás de luxo” ocupando o tempo livre dos filhos enquanto trabalham ou passeiam pelos shoppings.

Minha preocupação com tudo isso continua sendo com o aluno da escola pública, já que os filhos dos que determinam essas medidas estão recebendo uma educação tradicional e com muita exigência, qualidade e atenção nos colégios particulares da elite carioca ou estudando nos CAPs e Escolas Federais e fazendo cursinhos preparatórios. Qual o sentimento de vocês?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Começando a conversa...

Após um certo tempo de resistência acabei aceitando a idéia do blog, sempre incentivado pelo professor e amigo Serjão, companheiro desde o ensino médio e com quem trabalhei por mais de 15 anos no Colégio Lemos de Castro em Madureira.

Publicarei a partir de agora alguns textos e reflexões que já utilizo com minhas turmas para que possamos juntos enriquecer o debate da Educação Física Escolar, buscando soluções para os desafios encontrados no nosso dia a dia. Tenho também a intenção de utilizar este espaço diretamente para disponibilizar o material didático para minhas turmas. Vamos ver o que será ou não possível.

Buscarei com os textos provocar o debate. As exposições serão intencionalmente críticas para que a reação do leitor seja imediata.

Na Educação Física, assim como em outras áreas do conhecimento somos levados muitas vezes a análises descontextualizadas, imagens fotográficas da ação que julgam e condenam o que vêem sem entretanto apontar ou executar ações que solucionem ou auxiliem na proposta. Vamos então utilizar este espaço para reflexões que nos levem à ações práticas. A Educação Física precisa transformar o pensamento teórico em realidade física, real, adequada e relacionada ao nosso cotidiano.

Em breve começaremos a conversar. Por enquanto, um forte abraço a todos.